Tia Julia e o Escrevinhador – Mario Vargas Llosa

01/12/2009 por Fernanda Pasian

 

Nome: Tia Julia e o Escrevinhador

Autor: Mario Vargas Llosa

Editora: Alfaguarda

Número de Páginas: 359

Foi um romance publicado em 1977 e é considerado um dos livros mais originais de Vargas Llosa. É bastante autobiográfico e assim como em Travessuras da Menina Má, é narrado por um jovem peruano que sonha viver em Paris. Mas, esse jovem se apaixona por Tia Julia (como é chamada até o último capítulo), que na verdade não é sua tia legítima, mas irmã da mulher de seu tio. Mesmo assim, o fato de ser mais velha, “quase quase” poder ser sua mãe e de Varguitas pertencer a uma família tradicional, impede que a felicidade dos dois seja completa. O que antes era só uma brincadeira, vira paixão e resulta em casamento. É um romance muito bom, mas o que estraga o livro são os capítulos das novelas de Pedro Camacho, no caso, o “escrevinhador”, que trabalha na mesma rádio que Varguitas. Eu não tive paciência pra ler todas as novelas, por isso não posso opinar muito sobre o livro. Mas os únicos livros românticos que eu gosto de ler são os do Vargas Llosa.

Trecho: “- Sei como vai ser no futuro com todos os detalhes, vi numa bola de cristal – me disse tia Julia, sem a menor amargura. – No melhor dos casos, a nossa história duraria três, talvez uns quatro anos, quer dizer, até que você encontre a menininha que será mãe de seus filhos. Então você me dará um chute e eu terei de seduzir outro cavalheiro. E aparece a palavra fim.”

Fotografia

28/11/2009 por Fernanda Pasian

 

“Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta,  de uma ausência?”


(Clarice Lispector em A Paixão Segundo G.H.)

Dom Casmurro – Machado de Assis

15/11/2009 por Fernanda Pasian

Dom Casmurro

Nome: Dom Casmurro

Autor: Machado de Assis

Editora: FTD

Número de Páginas: 209

       A história é narrada por Dom Casmurro, apelido que Bento Santiago ganhou de um poeta por seu comportamento calado e metido consigo. Que quando já está velho e vive sozinho resolve escrever suas memórias, afim de “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.” A narrativa se passa na Rua de Matacavalos, onde Bentinho e Capitu se apaixonam quando ainda são crianças. Mas, o romance é proibido porque Dona Glória, a mãe de Bentinho, prometeu que se o filho vingasse seria padre. Quando o filho descobre que a mãe leva a sério a promessa, conta a Capitu, personagem  minuciosa e atenta, e, para Bentinho dona de “olhos de ressaca” , assim, os dois fazem planos para que D. Glória mude de ideia. Mesmo com a ajuda do agregado José Dias, Bentinho acaba indo para o seminário, onde conhece Ezequiel de Souza Escobar, e tornam-se amigos. Nesse período Capitu fica muito amiga de D. Glória, e depois de um tempo a mãe decide que se o filho não mostrasse vocação para ser padre, poderia estudar leis e até casar-se com Capitolina. É o que acontece, Bentinho e Capitu se casam e Escobar, que virara um comerciante bem sucedido, casa-se com Sancha, amiga de Capitu. Os dois casais de amigos têm laços fortes de amizade e se veem com frequência. A única coisa que falta para a felicidade completa do casal é um filho. Que demora, mas chega, e lhe é dado o nome de Ezequiel em homenagem a Escobar. Tempos depois, Escobar morre afogado e Bento flagra Capitu olhando de maneira rápida e disfarçada para o morto, mas de maneira “tão fixa, tão apaixonadamente fixa” que ele volta a citar os olhos e ressaca de Capitu, dizendo que eles ficaram “grandes e abertos como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã”. Entretanto, Bento esquece o ocorrido e volta a viver normalmente com a mulher, até que um dia ela comenta por acaso a semelhança de Ezequiel com Escobar. À medida que o menino cresce as semelhanças parecem aumentar e a relação de Bentinho e Capitu fica cada vez mais difícil, então Ezequiel é mandado para um internato. O casal acaba se separando, Capitu e o filho mudam-se para a Europa e morrem tempos depois. Dom Casmurro termina acreditando que Capitu o havia traído, cansado e sozinho em Engenho Novo, subúrbio do Rio de Janeiro, apenas com as lembranças do passado.

Vá, de ressaca.

05/11/2009 por Fernanda Pasian

Capítulo XXXII – Olhos de Ressaca

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“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

(Machado de Assis – Dom Casmurro, página 63)

Significado

01/11/2009 por Fernanda Pasian

No poema

e nas nuvens,

cada qual descobre

o que deseja ver.

                                   (Helena Kolody)

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Cartas Perto do Coração

24/10/2009 por Fernanda Pasian

Carta de Fernando Sabino à Clarice Lispector

 Rio de Janeiro, 27 de outubro de 1953

Clarice, Gostei de saber que você está com a alma mais sossegada. O sentimento de grandeza que você acha que está perdendo talvez agora é que você esteja adquirindo. Sua predisposição para ficar calada não é propriamente uma novidade: a novidade é estar aceitando, inclusive, o silêncio. É bom isso, dá mais paciência, mais compreensão, dá mais sentimento às coisas — e dá grandeza. Fernando.

Renato Russo – Treze anos de saudades

11/10/2009 por Fernanda Pasian

No dia 11 de outubro de 1996, O Brasil perdia o maior ídolo de uma geração. Hoje completamos 13 anos sem Renato Russo, que além de cantar também compunha as letras da Legião Urbana. Vítima de aids, deixou uma legião de fãs desamparados que até hoje cantam suas músicas.

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Renato Manfredini Júnior será eternamente lembrado como um homem a frente do seu tempo, que nos vocais da Legião Urbana - a maior banda de rock brasileiro - encantou e inspirou pessoas de diferentes faixas etárias com suas letras que falavam de diversos assuntos. Renato passeava pelos temas e era bem sucedido em todos, porque captava a essência do problema. Músicas sobre a capital do Brasil, emoções, situação política, amor, mundo jovem, repressão, histórias ou até no estilo de repente nordestino eram as mais pedidas nas rádios e cantadas pelas pessoas nas ruas.  A Legião Urbana, mesmo depois de extinta  conquista fãs com suas músicas que foram escritas há anos, mas continuam super atuais. Eu fui uma delas. Quando tinha 10 anos e todos sabiam as extensas letras e ”Eduardo e Mônica” e “Faroeste Cabloco” eu  não me interessava, achava chato. Passei a gostar de Legião Urbana quando tinha 14 anos e um amigo me mostrou Clarisse (“está trancada no quarto, com seus livros e seus discos, seu cansaço”). Hoje sou legionária e deixo aqui minha homenagem a esse homem incrível e excêntrico que foi Renato Russo. Um artista que representou uma geração inteira de jovens frustrados, indignados, ”impacientes e indecisos” com as mazelas de um país injusto e ditador, mas mesmo assim, não perdeu as esperanças e  dizia que “vale a pena acreditar no sonho que se tem”.

 

Renato Russo – O Filho da Revolução

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Título: Renato Russo – O Filho da Revolução

Autor: Carlos Marcelo

Editora: Agir

Número de Páginas: 414

 

A mais nova biografia de Renato Russo, foi lançada neste ano (2009). É fiel ao título e ao que se propõe, já que é um profundo e detalhado histórico sobre a relação de amor e ódio de Renato Russo com Brasília. Nascido no Rio de Janeiro, Renato mudou-se ainda criança para Brasília onde fez história. O livro contém várias informações sobre a construção, cenário político e desenvolvimento de Brasília, o que nos ajuda a compreender melhor a relação e as letras de Renato em relação a capital brasileira. Além disso, o livro contém material inédito, como fotos da infância e de shows, letras submetidas a censura, originais, anotações pessoais e depoimentos de Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá, Herbert Vianna, Marcelo Rubens Paiva, Dinho Ouro-Preto, Flávio e Fê Lemos, etc. Também há muitas informações sobre as letras, como por exemplo, quem foi o  casal de amigos que inspirou “Eduardo e Mônica”. O autor é lacônico ao falar de seus relacionamentos, do filho de Renato, da relação com drogas, sua morte e como as pessoas próximas reagiram, ou seja, é focado no que dá nome a obra: Renato Russo – O Filho da Revolução.

GO – Nick Farewell

07/10/2009 por Fernanda Pasian

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Título: GO

Autor:  Nick Farewell

Editora: Via Lettera

Número de Páginas: 219

GO é um livro peculiar em todos os sentidos. Imagino que tenha sido escrito pra dois tipos de pessoas: as que tem talento para  vida e as que tem talento para a leitura. Intrigante do começo ao fim, é impossível soltar o livro por um simples motivo, independente de onde viemos e de como fomos criados, nos encontramos nas páginas. O personagem com todas suas falhas, defeitos, excentricidades, devaneios, qualidades, desperta o interesse e a curiosidade do leitor que já passou ou sabe que vai passar pelas mesmas situações. Oportunidades, amores, traição, superação, mentiras, caminhos, dúvidas… a história mostrando o tempo todo que apesar de tudo, a vida é complexa, assim como são as pessoas. Vale a pena ler.

 

 Entrevista com Nick Farewell

Felizmente e graças a internet tive a oportunidade de conhecer e trocar algumas palavras com Nick Farewell, autor do livro GO. Ele foi muito gentil em responder minhas perguntas e deixar que eu as publicasse aqui no Letras e Livros. Mais um vez, obrigado Nick!

Fernanda: Há quanto tempo você escreve?

Nick: Por incrível que pareça nunca quis ser escritor. A escrita foi uma ferramenta para expressão da vida. Sou mais leitor do que escritor. Inclusive demorei para lançar o GO porque não via a necessidade.

Fernanda: Você pretende lançar outros livros?

Nick: Se der, lanço ainda este ano meu livro de poemas que juntei durante 20 anos e que possui a incrível quantidade de 41 poemas.
 

Fernanda: A maioria dos leitores se vê na história. O que é seu e o que é do personagem no livro?

Nick: Realidade e ficção se misturando o tempo todo. Mas afinal o que é real e o que é imaginário? Quem é você, quem sou eu e quem são os outros? São indagações existenciais e matéria-prima talvez para todas as minhas histórias.

Fernanda: Parece que você gosta de conhecer os seus leitores.. acredita que todos eles têm talento para a vida?

Nick: Acho bacana ouvir os leitores. Mesmo porque gosto de desmistificar essa ideia de que escritor é um ser do outro mundo. E claro, muitos leitores querem conhecer o autor do GO. O que é uma honra. Também significa que realmente gostou do livro. Se o que une ou que seja um ponto comum entre todos os leitores eu diria que é “talento para a vida”. Nós nos reconhecemos.

Fernanda: Assim como eu, muitos leitores elogiam GO. O que você acha disso?

Nick: É muito bom saber que você (e muitos) gostam do livro. Fico com sensação de dever cumprido. Obrigado.

Esta é a verdade, acredite se quiser

16/09/2009 por Fernanda Pasian

” – A verdade é que pela primeira vez estou me sentindo insegura, sem saber o que fazer. Muito só. Nunca me aconteceu nada parecido, embora também tenha passado momentos difíceis antes. Para seu governo, eu vivo doente de medo. – Falava uma com aspereza orgulhosa, num tom e com uma atitude que pareciam desmentir o que dizia. Olhava nos meus olhos, sem pestanejar. – O medo é uma doença, também. Que paralisa, que anula. Eu não sabia e agora sei. Conheço algumas pessoas aqui em Paris, mas não confio em ninguém. Em você, sim. Esta é a verdade, acredite se quiser. Posso telefonar de vez em quando? Podemos nos encontrar às vezes, num bistrô, como hoje?”

(Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa,  página 175)

Criar Laços

14/09/2009 por Fernanda Pasian

Ando com certa preguiça das pessoas. O que antes constituía um emaranhado de lembranças, que se convertiam em saudades, tornaram-se angústias. Justificar com a falta de tempo, uma desculpa que se aproxima de uma verdade tão distante quanto nós mesmos, já não tem o mesmo peso e nem o mesmo significado de antes. Dizer: “você não tem mais importância pra mim”, “não o considero mais um amigo”, ou “as coisas mudaram” seria duro demais. Podemos construir relações de dois modos. Um deles é pela convivência, rotina e necessidade. Que é pouco eficaz e duradouro, onde nos esquivamos rápido e nem nos preocupados dar explicações. O outro modo de construir relações é a partir da afinidade. Segundo a Química, afinidade é a tendência dos corpos para se unirem. É a afinidade que leva ao conhecimento do outro. Leva ao espelho. Afinidade pode acontecer com alguém que você acha que se parece muito ou com alguém que você julga ser seu oposto, e mesmo assim você gosta. A rotina nos traz poucas coisas inesperadas e poucas pedras no caminho a serem contornadas. Por isso as relações construídas assim descompassam com o tempo. Como não tem raízes, consequentemente não puderam crescer, não tiveram fases e acabaram morrendo. Só que é muito difícil distinguir quem é amigo pela rotina e quem é amigo por afinidade. Já que acabamos descobrindo afinidades com pessoas que vemos todos os dias e também nos esforçamos para ter sempre por perto aqueles com os quais temos gostos e ideias em comum. Às vezes penso que seria melhor não criar laços com ninguém, para que assim não pudesse cativar e ser cativada por todas essas pessoas que aparecem na minha vida. Por vezes, elas se fazem presentes mesmo longe e me salvam quando nem imaginavam que eu estivesse perdida. Por outras, me deixam esperando ou falando sozinha, sugam a minha boa vontade, minha paciência e vão embora. Mesmo sendo assim, eu descobri que é impossível não criar laços. Criar laços quer dizer arriscar. E nessa aventura, a gente descobre que por menor que seja o número de acertos, eles valem muito mais que os erros. Porque quem vale a pena, realmente vale. Criar laços é sentir junto, chorar junto (ainda que você não seja de chorar), rir junto e alto ou rir sozinho pra não ficar chato, é insistir no que não tem volta, e, principalmente, é não esperar absolutamente nada em troca, porque a reciprocidade é parte da outra fita. E ser recíproco faz parte de criar laços. Seja um laço de sangue, seja um laço de vida.