A poética de Aristóteles – Lígia Militz da Costa

O livro “A poética de Aristóteles – Mímese e verossimilhança” (Editora Ática, 2006, 75 páginas), da professora universitária, pesquisadora, ensaísta e poeta Lígia Militz da Costa, é descrito pela própria autora como uma reescritura ou remontagem completa da Poética, baseada no conteúdo, em três traduções da obra, notas e estudos.

A autora inicia seu texto abordando a forma como Platão compreendia a mímese. Para o filósofo, a mímese era um tipo de produtividade que não criava objetos originais, mas apenas cópias, que estavam longe da “realidade”. Platão entendia que a arte tinha origem divina e misteriosa, portanto, a mímeses deveria participar do ser originário, “imitando” em seu conteúdo a realidade das formas e ideias.  Como é pouco provável que isso ocorra, Platão defendeu que a mímese era falsa, ilusória e prejudicial ao discurso ideal do filósofo.

Aristóteles, discípulo de Platão, refutou o conceito do mestre, engrandecendo o processo mimético: a Arte é afastada da perfeição, da divindade e não está mais restrita a representação do mundo exterior. Segundo Aristóteles, a mímese passa a ser sustentada pelo conceito de verossimilhança, que garante a autonomia da arte, e essa deve fornecer possíveis interpretações do real, através de ações, pensamentos e palavras. Dessa forma, não é necessário que o objeto seja igual ao original, mas reconhecido por manter sua essência.

Em seguida, a autora afirma que Poética é reconhecida como a obra que cria a teoria literária Ocidental, sendo a primeira sistematização do discurso literário. Conjunto de anotações resumidas e obscuras que Aristóteles utilizava para fins didáticos, Poética apresenta a mímese, o mito e a catarse como base da arte poética (literária), ainda que o texto circunscreva aos limites da tragédia e da epopéia.

A segunda parte de “A poética de Aristóteles – Mímese e verossimilhança” é uma revisão comentada de Poética, dividida em sete tópicos, nos quais a autora apresenta um panorama geral sobre os vinte e seis capítulos que compõem a obra de Aristóteles, trabalhando de maneira mais aprofundada a ideia de mímese e as características que a distinguem, a verossimilhança  e a teoria da tragédia e da epopéia. O estudo de Aristóteles sobre a arte poética investiga a poesia como gênero, como espécies (epopéia, tragédia, comédia, ditirambo, aulética e citarística – todas são imitações) e como composição de mitos (fábulas ou histórias). Ainda que todas as espécies de poesia sejam imitações, elas podem divergir pelo fato de representar segundo meios, objetos ou modos variados.

O ato de imitar é realizado pelas cores, figuras e pela voz. Os meios próprios das artes poéticas são o ritmo, a linguagem (canto) e a harmonia (metro). Eles podem ser combinados de maneiras diversas de acordo com a espécie de poesia ou apresentar apenas um tipo de meio. Já os objetos de imitação são representados nos homens em ação: homens bons (pela virtude) ou maus (pelo vício), considerando o vício e a virtude como fatores que diferenciam em matéria de caráter. Essa diferença também é responsável por distinguir tragédia (homens melhores do que são) e comédia (piores do que são). Terceiro critério, o modo, pode ser narrativo (em primeira pessoa) ou dramático (deixando personagens imitadas tudo fazer, ser autor da ação).

Os motivos que teriam impulsionado o surgimento da poesia, chamados de causas naturais, são: tendência do homem para imitar, porque encontra prazer intelectual na emissão ou recepção dessa ação e sua busca natural pelo conhecimento, aprendizagem; disposição inata para a melodia e o ritmo, que inclui metros ou versos.

Militz da Costa afirma que do capítulo VI ao XXII Aristóteles dedica-se a estudar longamente a tragédia, base de sua arte poética. A autora acompanha o enfoque de Aristóteles dado a teoria da tragédia, apresentando em tópicos e subtópicos a definição de tragédia, os elementos que a compõem, técnicas que devem ser seguidas, etc.

A tragédia é uma representação de ações de homens de caráter elevado (objeto), expressa por uma linguagem ornamentada (meio), feita através do diálogo e espetáculo cênico (modo) e objetiva a produção da catarse, ou seja, a purificação das emoções, ao bem estar social.

Na terceira parte do livro, a autora dedica-se ao que considera como os principais aspectos de Poética: os conceitos de mímeses e verossimilhança. O que se segue são informações relevantes sobre a mímese agregadas de forma ordenada, facilitando a compreensão do conceito. Lígia Militz da Costa retoma a afirmação que utilizou ao fazer a reescritura de Poética, de que a poesia é mímese (imitação, representação), construída através de meios, objetos e modos e repete a ideia de que as diferentes espécies de poesia são resultado da combinação diversa desses três elementos. É importante ressaltar que a tragédia, mímese de qualidade superior, além de apresentar os três elementos (meio, modo e objeto) inclui a catarse, que é a capacidade de purificar as emoções do espectador, de produzir bem estar social. O prazer gerado pela mímese envolve a aprendizagem (conhecimento) e um reconhecimento (identificação com uma forma original)

Outra questão abordada pela autora de maneira mais detalhada é a de que toda mímese pode ser compreendida pelo estudo do mito trágico. O mito é a representação de uma ação uma (todos os fatos decorrem uns dos outros, por exemplo, uma cena exige a outra, ela não ocorre depois da outra, mas por causa dela), com partes (peripécia, reconhecimento e catástrofe) ordenadas em começo, meio e fim, segundo critérios da necessidade e da verossimilhança. O artista deve imitar os bons, guardando certa semelhança com o original, porém, melhorá-lo, embelezá-lo. A escolha de argumentos para a arte poética deve ser pautada na ideia de verossímil: o argumento impossível que conseguir convencer é melhor que um possível que não consiga. O valor artístico do mito trágico é estabelecido pelo grau de relação com a verossimilhança interna (critério fundamental para produção literária) e a necessidade de ação.

No quarto capítulo, Militz da Costa discorre sobre o conceito de mímese permanecer na teoria da literatura contemporânea, o que acentua a importância da verossimilhança interna. Ao relacionar mímese e linguística estrutural, a autora cita José Guilherme Merquior, defensor da ficcionalidade (fingimento dos mundos) da mensagem como fator distintivo do texto literário em relação aos demais. Quando trata-se de mímese e representação social, Luiz Costa Lima é citado, afirmando que a mímese de Aristóteles é o elemento central do pensamento ocidental sobre a arte e considerando um circuito entre o texto e suplementado pelo leitor como mímese. Sobre mímese e hermenêutica, Paul Ricoer critica a tradução de mímese por imitação no sentido de cópia, quando na verdade ela consiste no processo de construir cada uma das partes da tragédia (da intriga ao espetáculo). Segundo Ricoer, só há mímese onde há um fazer, a produção de algo singular.

Lígia Militz da Costa conclui defendendo a importância da mímese de Aristóteles na modernidade, enfatizando que o conceito promove a elucidação progressiva da pesquisa sobre literatura e promove uma transformação singular do que já existe. Tudo isso em decorrência da verossimilhança interna, que permite a reconstrução pelo receptor ou a nova representação produzida por outro criador.

(Em 2012, além das disciplinas obrigatórias do curso de Comunicação e Multimeios, resolvi estudar “oficialmente” literatura. A resenha acima foi feita para a disciplina de História das Ideias Literárias).

About these ads

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s