Ai de ti, Rubem Braga

Hoje, 12/01/2013, centenário de um dos maiores cronistas brasileiros. Abaixo, meus trechos favoritos das crônicas de Rubem Braga. E toda minha ternura vagabunda e inútil ao escritor.

rubembraga

Escritor Rubem Braga. Foto: Acervo Roberto Seljan Braga

“Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.”

(Trecho extraído de “A Viajante”, do livro “A Borboleta Amarela”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1963). via Releituras.

 “Valente menina!” Lá embaixo, na rua, era tocante seu pequeno vulto, reduzido pela projeção vertical. Iria com os olhos úmidos ou sentiria apenas a alma vazia? “Valente menina!” Como a chilena que enfrentava o mar, em Isla Negra, ela também enfrentava sua solidão. E eu ficava com a minha, parado, burro, triste, vendo-a partir por minha culpa.

(Trecho extraído da crônica “Valente Menina!”, que está no livro “A Traição das Elegantes”, 2ª edição, Editora Record – Rio de Janeiro, 1982)

“O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.”

(Trecho extraído da crônica “O Pavão”, do livro “Ai de ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 149). via Releituras

“Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei.”

 (Extraído da crônica Um sonho de simplicidade”, também do livro “A Traição das Elegantes”, 2ª edição, Editora Record – Rio de Janeiro, 1982)

 

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